Sofia Ribeiro Fernandes, crónicas de uma Mãe Pediatra e de uma Pediatra Mãe



Sofia Ribeiro Fernandes, crónicas de uma Mãe Pediatra e de uma Pediatra Mãe


domingo, 27 de agosto de 2017

Vidas suspensas

De  regresso às histórias da vida real. De regresso aos minutos contados a marcapasso por entre os apontamentos manuscritos e os alarmes dos ventiladores. De regresso aos meninos de olhos vivos cujo corpo se vai esquecendo de gesticular. De regresso aos bólus de vida e às perfusões de sonhos. Regressei e está tudo tão igual. O menino de coração estragado que não quer respirar sozinho. O menino que se esconde numa carapaça franzina que lhe deixa espreitar um sorriso doce de maracujá. A menina de mau feitio a quem ofereceram um rim novo que baptizou com um nome próprio digno de novela brasileira. 
Os meninos que vão e vêm e que ficam com os seus defeitos e feitios agarrados a maleitas de nomes esquisitos. Os meninos, são filhos de mães e pais, que se esquecem das horas, do dia do mês, dos cafés longe do refeitório do hospital, que se esquecem de respirar ar fresco, que se esquecem de ser namorados, que se esquecem de ser professores, que se esquecem do nome dos filmes do cinema. São também eles pais de coração estragado, pais escondidos nas carapaças, pais de rins novos. Agarram-se às vidas suspensas, sabem de cor as horas dos bólus e identificam pela cor os nomes de cada fármaco que se injecta, aspiram-nos com a arte de um especialista, reconhecem cada alarme. 24 horas do meu turno, vivem comigo cada bocado em que estou acordada, mas para eles que ficam encolhidos num cadeirão, sem nunca querer incomodar, são 24, sob 24, sob 24, para a vida toda...


Aos pais do menino escondido atrás de olhos vivos cor-de-azeitona que empurrei (ordem médica) para um namorico fora das nossas quatro paredes e a todos os outros... 




sábado, 29 de julho de 2017

Fausto

Fixei-me nos sapatos, pretos, de pele entrelaçada e possivelmente com perfume a tinta fresca de sapatos. Deitado em frente a mim, imóvel e só me fixei nos sapatos. Devia olhar o rosto, as mãos, a gravata, mas só me fixei nos sapatos. O rosto emagrecido, as mãos débeis, não pareciam as suas. Mas, os sapatos estavam tal e qual: iguais. Sempre impecavelmente limpos e arranjados, um verdadeiro luxo que não abdicava. 
Fica a imagem dos sapatos alinhados a somar-se às muitas outras que me deixas ficar. O pão fresco que, com chuva ou sol, ias buscar para mim. As compras de adolescente que nos faziam ir às lojas mais cool da cidade. A colher tingida de negro brilhante que acompanhava o almoço de todos os dias e que tinha sido a companheira na Índia, a única companheira de meses a fio. As histórias que contavas em qualquer lado e a qualquer hora, penetrantes. A liberdade em aceitar as mudanças, que a idade não daria. A firmeza nas decisões. Os amigos da rua e do café. E, fica tanto mais...
Ao homem mais íntegro e maravilhoso que alguma vez conheci.





terça-feira, 11 de julho de 2017

Nem doutor, nem Engenheiro

Os médicos deveriam ter, na formação, uma cadeira de boas maneiras, de gentileza, colocação da voz, e de bom senso. De regresso ao sítio onde os meninos ficam mais doentes e por mais tempo, ou porque se esqueceram de contar o tempo para nascer, ou porque desregularam os botões da máquina, apercebo-me assim, em modo espectadora, que fazem parte as palavras. 
As palavras contam. Contam quando são em modo off/surdina. Contam quando vêm embrulhadas em mãos que se tocam. Contam quando são transparentes. Contam quando não são fugidias. Contam quando não nos fazem morrer por dentro por mais cruas que sejam. 
Ilude-se quem pensa que que é fácil dar más notícias. Não é. E, há muito quem não saiba fazê-lo, e o faça da pior maneira. 
A exemplo: dizer para uma terceira pessoa, "já sabes que nunca há-de ser doutor ou engenheiro", mesmo à tua frente, para que ouças esse pensamento acompanhado de um acenar de cabeça afirmativo que o reforça. Esta constatação reforçada pelo aceno, é uma forma parva de tentar perceber se estás ciente do futuro, um baixar expectativas e abanar o coração. 
Cara colega, a constatação do futuro premeditado não dita condutas, nem modifica sorrisos. Ouvir desta forma é rude e dói, não pelo futuro mais ou menos brilhante, mas pelo que traz consigo nas entrelinhas. (Que se lixe o Dr. ou o Eng...) Cara colega, seria uma nota zero redonda na cadeira proposta para integrar os novos cursos de Medicina.
(Episódio pessoal datado de alguns anos atrás. Agora, deixei de ouvir constatações estupidifico-científicas- esta palavra não existe, mas achei-a tão perfeita...) 


Eu & Josefinas em Vidago Palace Hotel a colorir o chão pintado de igual e simércio



quarta-feira, 21 de junho de 2017

AssixFix Air, uma novidade deliciosa

Perguntam-me vezes e vezes sem conta qual a cadeira melhor, qual a mais segura e práctica, qual a que conselho.
Geralmente, aconselho aquela que também uso com os meus filhos, porque se apostei nessa marca, nesse modelo é porque acredito nele e isso é o que podem assumir.
Nos últimos dias tive conhecimento que a partir de Setembro, a Dorel, uma pequena unidade industrial sitada em Vila do Conde, vai produzir uma inovação maravilhosa para quem quer adquirir uma cadeira auto. Chama-se AxissFix Air ( modelo da cadeira Maxi-Cosi, da Bebe Confort)e detém um airbag activo na própria cadeira. Portanto, Pais que pretendem comprar cadeiras a curto prazo, se puderem aguardem até Setembro pela novidade.






Parabéns à iniciativa da Dorel que mais uma vez está em prol da segurança rodoviária infantil e a ajustar necessidades. Saliento que é a única marca em Portugal a  disponibilizar cadeiras de bebé para crianças com Displasia da Anca.




S na Assixfix



terça-feira, 13 de junho de 2017

Ode à S

Tinhas tudo para dar certo. O nervoso-miudinho, o dia escolhido a dedo, as ecografias nos percentis adequados à idade gestacional, as vitaminas engolidas sempre à mesma hora, os retratos em cenários fabulosos, o amor das mãos do Pai, a barriga voluptuosa, o enxoval alinhado e com perfume a Verão, os neonatologistas a postos. Tinhas os olhos postos em ti e em mim, a crítica permanente e o dedo apontado para a escolha de ser cesariana, de dia e hora marcados. Pontuais, assertivos e medidos de régua e esquadro. Que se lixem os dedos apontados e os comentários anonimamente reprovadores. Que se lixem os que não sabem o que dizem. Não voltaria a passar pelo sufoco interminável de horas de um parto abandonado num cubículo de hospital público, com direito a diplopia, a uma sede tremenda, a uma laceração do períneo e a um filho que só ficou duas horas nos braços e migrou para a incubadora. Não voltaria a viver aquela angústia, medo e desespero, por isso, escolhi que o teu primeiro inspirar de vida cá fora fosse no dia da Avó Carmina, tão ele cheio de luz e quente como ela era. Escreves nas gargalhadas uma felicidade de arraial de S. João, cantarolas a vida como ninguém, comandas nessa tua pequenez a malandrice de criança e marchas pela sala fora tal qual a Avó. 
Sim, deste certo, muito certo.

Mais um ano de vida à pequena S, que dança como ninguém a dança que Avó dançava, que se enerva de igual modo e que continuará as suas pegadas cá por baixo... A si, Avó Carmina, brindemos com um bom champagne e gargalhadas, porque dizia e muito bem, que um gole de vinho é alegria e sempre a conhecemos assim!